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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ajudando os mais vulneráveis na ala psiquiátrica.

Quando a polícia trouxe Jane para o 3East, as solas de seus pés tinham calos.


Jovem e bela sob uma camada de sujeira urbana, ela tinha sido trazida por vagar descalça nas ruas de Portland, Oregon, numa tarde bem quente de agosto.

Ela não dizia seu nome e não trazia identificação, mas concordou em ser levada pelo jovem oficial.

Quando chegou ao andar de cima, vinda da emergência, ela já tinha um par de chinelos azuis de papel, um comprometimento psiquiátrico involuntário (ela era considerada um perigo para si mesma) e um nome: Jane Doe.

Eu a cumprimentei a portas fechadas no 3East.

O elo da custódia tinha passado de um policial pensativo a uma enfermeira psiquiátrica.

Todo mundo tem uma história, mas as dos meus pacientes são muitas vezes ofuscadas por alucinações e ilusões.

No final acabamos traduzindo suas conversas codificadas e compreender suas histórias.

Jane foi minha primeira Sra.

Doe.

A história dela, assim como seu nome, ainda era um mistério.

Eu a acompanhei até a sala de entrevista e trouxe uma caneca de água morna medicada com sais Epsom.

Eu me apresentei e perguntei seu nome.

"Jane", ela disse.

"Esse é seu nome verdadeiro?" "É, eles me deram esse nome lá embaixo".

Fiquei quieta enquanto ela sorria, balançava a cabeça em sinal afirmativo e movia os lábios, aparentemente respondendo a vozes internas.

Ela não parecia angustiada.

Eu já estava acostumada com pacientes aterrorizados pelos comandos imprevisíveis e criticas cruéis de alucinações auditivas.

Jane me lembrava uma criança conversando com um amiguinho imaginário.

"Você sabe onde está?", eu interrompi.

"Numa ala psiquiátrica".

"Você tem família? Alguém que possa estar preocupado com você?" "Não".

"Alguém machucou você?" Ela sorriu.

"Não".

Sabia que tinha chegado a um beco sem saída.

Levantei todo o histórico médico que pude.

Ela era saudável, até vigorosa.

"Gostaria de ir para o meu quarto agora".

Ela se moveu levemente com seus pés machucados, como um sonâmbulo deslizando pelo surrado carpete do hospital.

Do nosso armário de roupas doadas, ela escolheu um par de chinelos cor de rosa.

O hospital colocou anúncios em jornais de Oregon e Washington, mostrando uma mulher na casa dos 20 anos com cabelos louros emaranhados.

"Você conhece esta mulher?", dizia o anúncio.

"Entre em contato".

Eu trabalhava dois turnos sucessivos de 16 horas toda semana.

Quando voltei para o hospital cinco dias depois de dar entrada em Jane, ela caminhava a passos largos pelo longo corredor até a sala comunitária, o centro das atividades daquela ala: sessões em grupo, refeições, visitas, pingue-pongue e, ocasionalmente, ataques violentos.

Nosso trabalho era estabilizar os pacientes na fase aguda de sua doença mental.

O psiquiatra de Jane tinha determinado um diagnóstico de transtorno esquizoafetivo, um distúrbio combinado de humor e pensamento.

Ela começou suas baixas doses de um estabilizador de humor e uma droga anti-psicótica para acalmar as vozes internas.

Quando me reapresentei, ela se lembrou de mim.

Seu cabelo estava limpo e arrumado, suas roupas surradas foram substituídas por jeans e camiseta doados.

Perguntei como tinha sido sua semana.

Tinha sido ruim, disse ela.

"Eles estão indo embora.

Meus amigos estão indo embora".

Ela não se referia aos amigos da ala psiquiátrica.

Ela queria dizer os amigos da sua própria cabeça.

"Jane, você tem a chance de viver algo novo", eu disse.

Minha esperança era que isso fosse realmente verdade.

"Tudo bem se eu não gostar?" "Tudo bem.

Você pode experimentar um pouco, antes de decidir".

Colaborei para tirar algo dela - suas vozes -, mas naquele momento de sua recuperação eu tinha pouca coisa para oferecer em troca.

Jane estava entre dois mundos.

Sem medicação e uma identidade, ela logo escorregaria de novo para o abandono.

A forma como nós ajudamos os mais vulneráveis envolve descobertas importantes por puro acaso e as ferramentas limitadas da nossa caixa de ferramentas: conversa e medicação, arte e ciência.

Há poucos momentos "Tcharam!" na psiquiatria.

Os diagnósticos são turvos.

O cérebro pode ser muito firme em guardar os segredos sobre suas doenças.

O tempo é importante.

Nossa intervenção chegou cedo à doença de Jane.

Ela respondeu bem ao tratamento; ela também se aproximava de receber alta, mas ainda não tinha lugar para ir.

Jane precisava ser cuidada, mas ninguém tinha telefonado para saber da jovem.

Como acontece tantas vezes, não tive tempo para entrar em contato com Jane depois que ela deixou o 3East, mas pensei muito nela - uma mulher jovem tão desconfortável em sua pele que negou seu nome, uma jovem mulher com o tempo acabando.

Quando a vi novamente, ela tinha um nome e uma família - uma avó com quem vivia no leste do Oregon e que chorou prematuramente a morte da neta até que um vizinho bateu em sua porta segurando um anúncio de jornal.

Ela tinha uma história.

Jane tinha sido excelente aluna no colegial, depois na faculdade.

A moça tinha planos.

Mas então as vozes começaram.

Ela largou a faculdade, foi demitida de uma série de trabalhos mal remunerados porque falava sozinha e deixava os clientes nervosos.

Os amigos foram embora.

Ela chegou até Portland, mas deixou seu nome para trás.

A porta do 3East é rotatória.

A reincidência faz parte da luta com a doença mental.

Vemos a maioria dos nossos pacientes mais de uma vez.

Mas não Jane.

Ela não telefonou nem apareceu na emergência.

Esperamos o melhor, mas nos preparamos para o pior.

Meses mais tarde, a avó de Jane deixou uma mensagem dizendo que ela estava bem, de volta à faculdade.

Sua história tinha alguns novos e bem-vindos parágrafos, para não dizer um final feliz.

Evelyn Sharenov é escritora e enfermeira psiquiátrica em Portland, Oregon.

© 2010 New York Times News Service Tradução: Gabriela d'Avila

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